Por: Coluna Pelo Estado por Fábio Bispo | 27/07/2020
Entrevista
Clecio Poleto Martins

O ano de 2020 tem sido de provação para muitos setores. A Centrais Elétricas de Santa de Santa Catarina além de ver sua arrecadação cair com a queda da demanda, puxada pela paralisação de diversas atividades nos setores produtivos, ainda enfrentou o pior acidente na rede elétrica já ocorrido no estado.

Mesmo assim a companhia tem anunciado investimentos significativos com a previsão novas subestações e com o lançamento, agora este ano, do programa Celesc Rural, que prevê a renovação do cabeamento que vai atender mais de 50% das famílias que vivem nas zonas rurais do estado.

Na entrevista dessa semana, a Coluna Pelo Estado conversa com o presidente da Celesc, Clecio Poleto Martins, que fala um pouco sobre os investimentos que a companhia está fazendo, como foi lidar com o ciclone e também sobre distribuição dos lucros da empresa, que chegou a ser contestada por alguns setores.

Além disso, Poleto informa que a companhia tem adotado medidas para minimizar os impactos causados pela pandemia e anuncia que os prejuízos contabilizados no período serão cobrados na tarifa do consumidor a partir de 2022, e serão pagos em cinco anos.
[Pelo Estado] – Recentemente a Celesc anunciou a continuidade do programa de melhorias da rede rural. Em que consiste o programa?

Cleicio Poleto – Ano passado, rodando pelo estado, nós percebemos quais são as principais demandas dos produtores rurais. A propriedade rural é uma mini-indústria. O Celesc Rural começou no ano passado e demoramos para lançar porque queríamos ver se o resultado era aquilo mesmo.. A primeira região atendida foi o Alto Vale, em Ituporanga. E o resultado é que o número de quedas reduziu muito e a confiabilidade na companhia aumentou 90% na região atendida.

O que fizemos foi substituir as redes nuas por redes protegidas, o que evita os desligamentos acidentais e garante a rede energizada. Em muitas localidades foi preciso colocar a rede trifásica também, pois havia essa necessidade de maior demanda da potência distribuída. Paralelo ,também estamos instalando religadores automáticos, que reenergizam a rede automaticamente., diminuindo muito o tempo de espera do cliente consumidor. Claro que quando temos uma queda de árvore ou de poste a interrupção mais longa vai ocorrer, mas ela é menor agora.
Não ter interrupção da rede. Esse é o objetivo. Se a pessoa tinha cinco quedas ao ano ela passou a ter uma queda. E o programa vai passar por todas as regiões.

Esse ano retomamos o programa e já investimos R$ 80 milhões só para redes e mais R$ 30 milhões serão aplicados nos religadores. Em agosto a previsão é investir mais R$ 40 milhões, totalizando R$ 151 milhões só nesta primeira etapa. Serão 135 mil proprietários rurais. O que significa que nós atenderemos quase 50% de toda a área rural do estado. e onde 90% são classificadas como de agricultura familiar,

[Pelo Estado] – O ciclone-bomba que passou pelo estado causou o maior acidente da história da rede de energia de SC. Como a companhia está lidando com os efeitos e quais são os prejuízos até agora?

Cleicio Poleto- Esse evento atingiu todo o estado. Ele chegou no Extremo-Oeste pela manhã e a gente identificou lá e começamos a monitorar e ver no painel, aqui em Florianópolis, onde a rede não estava energizada. O operador identificou e começou a passar a informação para quem estava em campo. Nesse caso, como começou no Oeste e nós fomos acompanhando, ele foi abrindo braço pelo estado e tomando todas as regiões, quando chegou aqui na Capital houve também a queda da telecomunicação. Essa comunicação que tínhamos com os clientes e com os eletricistas também caiu. Nós acionamos o comitê de crise e naquele mesmo dia começamos a nos deslocar para as subestações e colocamos 1.300 homens em campo. Em cinco dias reenergizamos 1,5 milhão de unidades consumidoras.

[Pelo Estado] – A Celesc tem anunciado a construção de novas subestações pelo Estado. Temos demandas das comunidades em diversas regiões, como Itapemae na Grande Florianópolis. Quais as previsões para novas estruturas?

Cleicio Poleto- Só na distribuição de energia, ano passado, a gente fez investimentos que chegaram a R$ 360 milhões. Inauguramos cinco subestações, em Canoinhas, Brusque, Araquari, Florianópolis e São José, e outras estão em andamento

Nós já adquirimos dez terrenos para as novas subestações. Usualmente se adquiria dois terrenos ao ano. Demos um foco total nessa área. Compramos sete e três estão em vias de fechar.

Em Itapema, a deputada Paulinha (PDT) fez u0m esforço com a prefeitura de Itapema e nós já temos o terreno disponível. Eu estive na região e agora falta licenciamento, licitação e obra. Em média, após termos o terreno, a expectativa é de que tudo fique pronto entre um ano e meio a dois anos. Nós também temos uma obra em andamento em Itajai, na subestação Salseiros 2, que e que vai atender também Itapema e Barra Velha.

[Pelo Estado] – Recentemente, na passagem do presidente pelo Estado, o governador Carlos Moisés (PSL) pediu a liberação de verba para cabeamento subterrâneo. Como a Celesc vê esse pedido?

Cleicio Poleto – A Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] é quem regula todos os investimentos. A Aneel fiscaliza se foi lançado como ativo regulatório e transformada em tarifa. E esses investimentos precisam ser aprovados para depois comporem parte da tarifa por cinco anos. Uma subestação que construímos é cobrada de todos os consumidores por cinco anos. Ocorre que a Agência não autoriza, salvo raros casos, os investimentos em cabos subterrâneos. Essa é uma regra que vale para o todo o país, mas aqui em Santa Catarina, por exemplo, os tornados são mais frequentes, temos ocorrências de ventos fortes todos os anos. Mas se a Aneel não autoriza que isso seja feito na forma de investimento ele acaba sendo um custo para a empresa e não poderá compor a tarifa lá na frente.

O próprio presidente da república prometeu nos ajudar. O investimento em cabo subterrâneo pode ficar de quatro até 12 vezes mais caro, mas se faz necessário. Em um evento como esse do ciclone-bomba, se tivéssemos as principais linhas com cabeamento subterrâneo teríamos menos prejuízos e atuaríamos com mais agilidade no atendimento dos casos importantes.

[Pelo Estado] – Repercutiu negativamente a decisão da companhia em promover a distribuição dos lucros aos diretores ainda durante período da pandemia. Qual é a versão da empresa sobre esse assunto?

Cleicio Poleto – Nós fizemos todo um levantamento sobre a distribuição dos lucros e protocolamos no Tribunal de Contas e Ministério Público dando esclarecimento a todos os fatos. Não temos o que esconder sobre isso. O pagamento da participação dos lucros existe desde 1984, na época era paga em forma de gratificação e em 2003 começou a ser distribuída na forma de lucros e resultados aos empregados. É uma forma de comentar os funcionários em troca de resultados. Há um contrato que é assinado com os acionistas que fica resultados e remunerações e que é assinado com o Conselho de Administração. Está no Estatuto Social e no Estatuto dos Acionistas. Entre 2009 e 2019 foram pagos R$ 317 milhões só aos empregados pela participação nos lucros. Isso é bom para os trabalhadores da Celesc. Esse pagamento acontece usualmente em abril, mas esse ano nós adiamos por conta da pandemia por 90 dias, que também é o prazo máximo.

[Pelo Estado – Mesmo assim a empresa contabiliza prejuízos com a queda da demanda durante a pandemia, principalmente por conta da redução no setor produtivo. Como está sendo esse enfrentamento?

Cleicio Poleto – O consumo caiu em média 12% daquilo que a gente já tinha previsto. E isso é muito, principalmente para a distribuidora. Nossos contratos são de agosto a julho, e 85% do que arrecadamos é repassado, outra parte vai para o estado em iCMS e 15% daquilo que a gente arrecada fica com a Celesc. Naturalmente vai ter queda na arrecadação, mas nossos repasses já estão comprometidos. Tomamos algumas ações em relação ao caixa da empresa. E também criamos a conta covid-19. Com isso, os prejuízos desse período começarão a ser cobrados em 2022 e em cinco anos, é uma tentativa de minimizar o impacto direto ao consumidor.