Por: Coluna Pelo Estado por Ewaldo Willerding | 22/02/2021

Entrevista

Altair Silva

Secretário de Estado da Agricultura

Altair Silva é natural de Major Gercino, tem 54 anos, é técnico agrícola e formado em Direito, com MBA em Agrobusinness pela Fundação Getúlio Vargas.

Ao longo de sua trajetória profissional, sempre teve forte ligação com o agronegócio catarinense, com passagem pela secretaria da Agricultura de Chapecó e contribuição em diversas entidades envolvidas com o setor.

Em 2018, foi eleito deputado estadual com mais de 30 mil votos. Em janeiro, assumiu a secretaria de Estado da Agricultura no que considera “o maior desafio da sua vida”. Entre as ações de sua gestão, destaca reduzir os impactos da estiagem e a melhoria na energia elétrica disponível no meio rural, entre outras.

O agronegócio responde por 70% das exportações catarinenses e por cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado. Manter o nível de excelência e melhorar ainda mais o setor estão na pauta do secretário de Altair Silva de agora em diante.

Nesta entrevista exclusiva à coluna Pelo Estado, ele fala sobre esses desafios.

Confira:

Pelo Estado – O senhor pode fazer um balanço de um mês à frente de uma pasta tão importante para Santa Catarina?

Altair Silva – A oportunidade de assumir a secretaria da Agricultura representa um grande desafio na minha vida. Eu sempre fui ligado ao agronegócio catarinense, me sinto bem à vontade com a equipe da Cidasc, da Epagri e do Ceasa, temos uma grande equipe de técnicos, com conhecimento e competência para realizar grandes ações. Recentemente assinamos a renovação do Terra Boa, onde estamos investindo R$ 57 milhões em programas de troca-troca, ou seja, o produtor paga com aquilo que produz. Esse programa beneficia o calcário para corrigir a acidez do solo; sementes de milho; kit forrageira; solo saudável e kit abelha. Esses R$ 57 milhões vão movimentar cadeia produtiva muito importante, que é a do milho, principal insumo da agroindústria catarinense.

[PE] – O senhor lançou um desafio para o cultivo do milho no inverno, como é isso?

A.S. – Estamos realizando um grande trabalho junto às empresas de pesquisa para incentivarmos cultivares de inverno. Santa Catarina tem um déficit significativo. Compramos milho de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, a 2 mil quilômetros de distância, com um custo de frete altíssimo. Por isso trabalhamos para incentivarmos esses cultivares de inverno. Durante o verão nós temos as safras de soja e de milho, mas durante o inverno as áreas ficam no máximo com uma cobertura verde. Queremos que essas áreas produzam cereais para serem aproveitados para fazer ração, como o trigo. Vamos desenvolver uma variedade específica para a produção de ração. Esse é um grande desafio, porque o trigo que produzimos é vocacionado para o pão. Queremos reduzir o déficit na produção de ração para a avicultura, para a suinocultura e para a bovinocultura leiteira.

[PE] – Há também um desafio para o cultivo do arroz. O senhor pode explicar como será?

A.S. – Nós temos também um desafio para desenvolver cultivares de inverno na lavoura do arroz. O arroz é colhido e fica lá o período todo do inverno esperando a volta do cultivo do próprio arroz. Vamos investir forte em pesquisa para encontrar variedades que se adaptem ao solo onde hoje é cultivado o arroz, para possamos ter mais produção de milho em Santa Catarina. Recentemente estive no Sul do Estado onde as cooperativas estão fazendo um grande programa. Então, temos o apoio do governador Carlos Moisés para desenvolvermos o troca-troca e produzirmos mais ração para as agroindústrias e diminuirmos esse déficit.

[PE] – Santa Catarina gerou mais empregos mesmo diante de uma estiagem histórica. Quais são as ações para minimizar este problema junto aos agricultores?

A.S. – A secretaria da Agricultura tem duas linhas mestras, a recuperação de nascentes de água, com a reservação de água na forma de cisternas e açudes, inclusive com programas subsidiado por juro zero, onde o produtor pode contratar empréstimo com o estado fazendo o aporte do juro. Ele pode procurar a Epagri que, de acordo com o perfil produtivo dele, ver em qual modelo se encaixa para captar recursos. Criamos ainda um programa para financiar poços artesianos de forma coletiva – no mínimo cinco produtores juntos, que podem captar recursos até o valor de R$ 50 mil a juro zero e, pagando as prestações em dia, ainda tem um desconto de 30%. Ou seja, pega R$ 50 mil e acaba pagando R$ 35 mil em 5 anos.

[PE] – Qual o trabalho que está sendo feito junto às prefeituras para o caso de nova estiagem?

A.S. – Estamos fazendo um trabalho junto às prefeituras para a aquisição de equipamentos para elas já estarem preparadas na próxima estiagem. A grande dificuldade é o transporte de água para essas propriedades. Estamos fazendo um estudo para que o estado possa ajudar as prefeituras a terem infraestrutura necessária para atender essa demanda.

[PE] – Há também uma ação para energia elétrica no campo. Como é esta ação?

A.S. – Essa é a segunda linha mestra da nossa pasta. Ela se dá de duas formas: uma atender a demanda das propriedades que têm necessidades de motores com potência superior a 12,5 cv; porque a energia monofásica e bifásica comporta, no máximo, apenas motores com essa potência. Quando alguma atividade precisa de motores mais potentes, a energia é trifásica. Então, estamos melhorando a energia monofásica, trocando os fios existentes que eram sem proteção – dá um vento, cai um galho ou a própria folha, faz com que corte a rede de energia e a atividade rural fica parada. Estamos trocando por fios protegidos, que garantem mais segurança. Eu sei que os produtores rurais querem isso para ontem, mas lembro que todo o programa de eletrificação rural levou 40 anos para atender todas as demandas do interior e não será em 40 dias que nós vamos atender toda essa demanda, até porque não temos fornecedores nem estrutura suficientes necessários.

[PE] – A secretaria da Agricultura, então, precisa da parceria da Celesc?

A.S. – Estamos num diálogo muito forte com a Celesc. Mas a Celesc é regulada pela Aneel e tem que seguir as resoluções da agência reguladora. Todos os fios de internet das cidades pagam um aluguel para a Celesc sobre o poste que é utilizado. A cada poste ela paga R$ 100 de aluguel. Então você imagina no interior, que é distante, em áreas enormes, se for pagar R$ 100 reais de aluguel a cada poste, a internet de qualidade nunca vai chegar no interior. Vamos depender da internet via rádio que a gente sabe que é uma tecnologia frágil, e com velocidade baixa. Nós estamos numa grande articulação junto à Celesc para que no interior esse custo seja isento para que possamos levar fibra óptica até essas localidades. Aí sim vamos conseguir fazer tudo o que o produtor precisa para gerar mais riqueza. Energia de qualidade, água em abundância e internet.

[PE] – Quais as ações para a Pesca?

A.S. – O potencial pesqueiro de Santa Catarina é extraordinário. Temos um litoral bem superior ao do Paraná, São Paulo, perdemos para o Rio Grande do Sul apenas em tamanho, com uma costa oceânica muito mais favorável à exploração da piscicultura, além do peixe de água doce. A piscicultura tem sofrido altos e baixos, ainda não é uma cadeia produtiva organizada. Não que seja desorganizada, essa palavra não cabe. Mas estamos fazendo reuniões importantes para dar condições para o setor trabalhar com mais estabilidade. A pesca é um setor que historicamente não se sente atendido por políticas públicas e, às vezes, não compreendido pelos órgãos ambientais. Então precisamos contribuir para melhorar cada vez mais a pesca.