Por: Jornal Sul Brasil | 03/11/2020

Transformar o ambiente hospitalar, ressignificando-o, colaborando para o bem-estar dos pacientes e gerando conexões reais e empáticas entre os envolvidos. Esse é o objetivo dos Doutores RiSonhos, artistas que escolheram o hospital como palco para sua atuação na palhaçaria. O grupo completa oito anos neste mês e comemora a evolução e os resultados do trabalho.

Nascidos em 2012, os Doutores RiSonhos surgiram do desejo de Vinicius Bouckhardt (Doutor Chicote), Coordenador Geral do grupo, de trabalhar com palhaçaria no hospital. A ideia, a princípio, era se mudar para São Paulo e trabalhar com os Doutores da Alegria, grupo que é referência no Brasil na área. Ao apresentar a ideia para a parceira Michelle Silveira da Silva (Doutora Barrica), encontrou nela o desejo de compartilhar um novo projeto, aqui mesmo em Chapecó. “Iniciamos pequenos, com visitas em poucos setores e aos poucos o projeto foi tomando corpo e ganhando a necessidade de ter uma equipe, de buscar financiamento, fomos ampliando”, comenta o coordenador.

Michelle, que é diretora artística dos RiSonhos, lembra que o projeto, desde o início, foi pensado como uma forma de trabalho. “Sempre quisemos que ele garantisse a remuneração da equipe, nunca pensamos em ser voluntários. Consideramos importante ter um projeto que era inédito na cidade e, com ele, fomos aprendendo a fazer projetos de captação de recursos e leis de incentivo”, completa.

 

Evolução constante

As visitas iniciaram no Hospital da Criança e no Hospital Regional do Oeste e, cada vez mais, os Doutores têm novos espaços para visitar dentro das instituições. “Seguimos ampliando os setores visitados e ainda não conseguimos trabalhar em todos, por falta de pessoal. A nossa ideia é fazer um trabalho contínuo, por isso não fazemos visitas pontuais, não queremos ir uma vez e não conseguir mais voltar”, ressalta Michelle.

Os dois contam que, no princípio, houve um certo estranhamento ao projeto, já que havia uma ideia de que palhaço no hospital era só para as crianças. E conforme o trabalho foi se desenvolvendo, profissionais e diretores foram compreendendo a dinâmica e que o objetivo principal das ações, que é de humanização da saúde, é para todos: equipes, profissionais, pacientes e seus acompanhantes.

O grupo, que começou com cinco pessoas, hoje conta com 20, entre palhaços, equipe de apoio, comunicação e produção. “Isso também é uma coisa que nos orgulha, saber que somos responsáveis por remunerar pessoas, somos uma oportunidade para quem quer trabalhar com arte conseguir realmente viver desse trabalho. ” O grupo é uma referência para o Oeste. “É muito importante ter aqui uma oportunidade, esse espaço para quem estuda artes cênicas, como eu, pensar que pode trabalhar na área sem ir para longe”, destaca Gabrielle Heinz (Doutora Magnólia), que é natural de Maravilha e faz parte do grupo desde o início do ano.

Outra palhaça que entrou para o grupo neste ano é Melaine Pilatto (Doutora Margareth), que veio de Curitiba para trabalhar nos Doutores RiSonhos. “Já tinha visto o edital de 2018, mas como estava indo para o Mestrado em Florianópolis, não tentei. Em 2019 decidi tentar e agora estou aqui, nesse projeto que me permite um encontro com o outro e comigo mesma. É um trabalho artístico, mas também humano, social”, complementa.

 

O ofício do palhaço

Para os integrantes do grupo, estar no hospital é um exercício constante de aprendizado e transformação, com a generosidade dos pacientes, a atenção dos familiares e entrega das equipes. “Uma história que nos marcou muito foi a de uma família que estava acompanhando uma senhora em um estado bem crítico. Quando entramos no quarto, eles sentaram ela para acompanhar as brincadeiras e músicas e registraram esses momentos. Alguns dias depois, ficamos sabendo que ela faleceu e recebemos um depoimento da família agradecendo por termos deixado eles com essa memória tão feliz e bonita dos seus últimos momentos. Foi extremamente emocionante”, conta Michelle.

Esse e outros exemplos são mais um dos motivos que reforçam a necessidade da formação em palhaçaria hospitalar para quem deseja atuar na área. “Muitas pessoas querem entrar para o grupo com a intenção de ‘fazer o bem’, de levar alegria para quem está no hospital. Mas é preciso estar pronto para momentos difíceis e nos quais é necessária muita preparação: depende de técnicas, de estudo e de conhecimento para saber como agir e como interagir com sensibilidade com os pacientes”, ressaltam.

Percebendo essa necessidade, desde 2016, os Doutores RiSonhos realizam oficinas de iniciação à palhaçaria, com o objetivo de formar novos profissionais na área. E desde então, mais de 200 pessoas já passaram pelas oficinas. Atualmente, estão em andamento duas turmas de formação, uma de iniciação e outra de formação continuada, com aulas online por conta da pandemia do coronavírus.

 

Planos e sonhos

O coordenador do grupo destaca que os RiSonhos nasceram pequenos, mas com o sonho de ser grandes. “Criamos o projeto para ser duradouro e expandir cada vez mais. Imagino daqui um tempo 20 palhaços trabalhando com a gente, termos uma sede própria, com espaço que tenha condições de fazer apresentações, poder levar a nossa realidade do hospital para a comunidade. Desde o começo, nossa intenção é a de um projeto sólido, de continuidade e com qualidade, que também mostre para as pessoas que a arte é um trabalho sério e profissional”, completa.

O grupo de palhaços dos Doutores é composto por Vinicius Eduardo Bourckhardt, Michelle Silveira da Silva, Gabrielle Heinz e Melaine Pilatto. Todas as ações são viabilizadas pela Lei de Incentivo à Cultura Federal e pelo patrocínio de empresas locais e regionais.

 

Onde estamos?

Você pode acompanhar as ações dos Doutores RiSonhos pelos canais:

www.doutoresrisonhos.com

http://doutoresrisonhos.blogspot.com

@doutoresrisonhos (facebook e instagram)