Por: Jornal Sul Brasil | 22/05/2020

Momento muito aguardado pelos pais, familiares e amigos, a gestação é uma fase única, marcada pela expectativa em receber o novo integrante, pelos cuidados necessários com a saúde da mãe e por muitas dúvidas sobre o que é realmente recomendado para o período. No momento atual de pandemia do novo Coronavírus os questionamentos e as incertezas aumentam. Exemplos disso são: as consultas de pré-natal devem ser mantidas? Em que casos há indicação de cesárea para gestantes com a Covid-19? Essa nova doença pode induzir ao parto prematuro? Uma gestante infectada pode transmitir para o recém-nascido?

Grávidas em qualquer idade gestacional e puérperas até duas semanas após o parto (incluindo as que tiveram aborto ou perda fetal) foram incluídas pelo Ministério da Saúde do Brasil ao grupo de risco para possíveis complicações da Covid-19. “Assim, considerando as diversas modificações fisiológicas da gestação, pode haver um risco teórico maior de desenvolver quadros clínicos graves dessa nova doença, em particular pneumonia e insuficiência respiratória”, explica a ginecologista e obstetra, médica cooperada da Unimed Chapecó, Dra. Simone Batisti Giroldi.

As recomendações para esse público evitar a infeção pela Covid-19 são semelhantes das demais pessoas. Para se proteger é necessário: lavar as mãos com água e sabão ou higienizar com álcool em gel; manter um distanciamento seguro de outras pessoas; evitar tocar nos olhos, nariz ou boca e praticar a etiqueta respiratória (cobrir boca e nariz com o cotovelo dobrado ou com lenço quando tossir ou espirrar, lembrando de descartar o lenço utilizado imediatamente).

De acordo com Simone, caso a paciente tenha febre, tosse ou dificuldade para respirar deve procurar rapidamente uma assistência médica, priorizando primeiramente o contato telefônico antes de se deslocar a uma unidade de saúde e seguir as instruções das autoridades sanitárias locais. “As gestantes e puérperas, incluindo aquelas afetadas pela Covid-19, devem manter suas rotinas e seus acompanhamentos médicos. Além disso, o contato próximo e a amamentação precoce e exclusivamente materna ajudam no desenvolvimento do bebê, então, mães não devem ser afastadas dos recém-nascidos”, reforça.

As consultas de pré-natal, segundo a médica, deverão seguir como rotinas habituais, conforme o seu risco, a presença de intercorrências ou morbidades. Em todas as consultas os profissionais da saúde investigarão a presença de sintomas gripais ou contatos recentes com pessoas infectadas pela Covid-19. Segundo Simone, a gestante deve permanecer o mínimo de tempo necessário para avaliação, evitando ao máximo aglomerações em salas de esperas. Os intervalos entre as consultas e as realizações de exames poderão ser ampliados, de acordo com análise dos riscos e benefícios, com o intuito de evitar exposição desnecessária das gestantes aos ambientes de risco para contaminação.

Há indicação para realização de cesárea somente se o quadro clínico da gestante infectada evolua com sintomas críticos. Para gestantes com boas condições clínicas, sintomas leves e feto com boa vitalidade o recomendável é o parto vaginal. Quanto ao questionamento se uma gestante infectada pode transmitir para o feto ou bebê durante a gravidez ou o parto, Simone justifica que ainda não há uma certeza sobre esse assunto e que até o momento o vírus não foi encontrado em amostras do líquido amniótico ou do leite materno. “Outra dúvida recorrente é sobre a possibilidade da Covid-19 provocar aborto. Nestas situações o caso deve ser individualizado, pois não há estudos que comprovem que essa nova doença provoque aborto”, comenta.

Pesquisas recentes

A ciência tem avançado rapidamente para o enfrentamento dessa pandemia, porém os estudos ainda são preliminares. Uma evidência é sobre gestante e pré-eclâmpsia. Simone relata que a evolução materna e perinatal de mulheres de 27 a 40 anos, com idade gestacional de 36 a 38 semanas, infectadas pela Covid-19 que tiveram suas gestações resolvidas em Wuhan, na China, mostra que as manifestações clínicas nestas gestantes não foram graves e o prognóstico materno foi considerado bom. Todas as mulheres não apresentavam outras doenças previamente à gravidez, mas referenciavam histórias claras de exposição a pessoas com a infecção. Além de febre e pneumonia, alterações que todas as mulheres apresentaram, foram observadas complicações como pré-eclâmpsia e alterações de função hepática (um caso cada).

Outros estudos verificam se a Covid-19 induz ao parto prematuro. Segundo Simone, na primeira revisão, foram selecionadas seis pesquisas que incluíram 48 mulheres até o momento do parto, com média de idade gestacional de 36 semanas. Dos partos, 46 foram cesáreas e somente dois vaginais (um com 34 semanas e outro com 31 semanas, de gêmeos), sendo que a indicação pela cesárea não foi relatada nos trabalhos. Também teve o registro de uma morte intrauterina e de um natimorto, ambos de pacientes graves.

Na segunda revisão foram avaliados 33 estudos com 385 gestantes (da Ásia, Europa e Estados Unidos da América), das quais 17 necessitaram de leitos em UTI. Ao todo foram acompanhados 252 partos (70% cesáreas), dos quais 39 foram prematuras. Também teve o registro de uma morte intrauterina e dois natimortos de pacientes graves. “Alguns estudos mostram uma associação entre Covid-19 e parto prematuro, porém, não está determinado se esse efeito é pelo vírus em si ou se ocorre devido à realização de cesáreas eletivas antecipadas por piora ou receio do aumento dos sintomas das gestantes. Importante ressaltar que as alterações no quadro clínico da gestante, como insuficiência respiratória e febre alta, são alguns dos motivos que podem levar a grávida a um parto prematuro”, finaliza Simone.