Por: Jornal Sul Brasil | 16/11/2020

O Sistema CNA/Senar promoveu nesta semana o 6º Seminário Nacional do Projeto Campo Futuro para apresentar os principais resultados dos levantamentos dos custos de produção de 22 atividades agropecuárias em 2020.

Durante o ano, os técnicos do Projeto realizaram 102 painéis virtuais em 19 Estados. Os encontros reuniram produtores, pesquisadores e representantes de sindicatos rurais, de Federações de Agricultura e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Em Santa Catarina, o projeto foi realizado em agosto, nos municípios de Xanxerê, Campos Novos e Araranguá, com apoio do Sistema FAESC/SENAR-SC. O levantamento apontou os custos da produção de soja, milho, trigo, feijão, arroz e aveia branca.

O projeto é realizado anualmente em parceria com universidades e centros de pesquisa e alia a capacitação do produtor rural à geração de informação para a administração de custos, de riscos de preços e gerenciamento da produção.

Frutas e hortaliças 

 Os especialistas fizeram um balanço dos custos e falaram sobre como os produtores rurais devem se planejar para o próximo ano. “A pandemia criou um ambiente volátil. No início, alguns setores foram muito afetados em razão do fechamento do comércio. Com o passar dos meses, o mercado aqueceu e a demanda por alimentos aumentou, ocasionando a falta de embalagens plásticas e de papelão para as frutas e hortaliças. Em contrapartida a essa demanda aquecida, os custos de produção têm subido consideravelmente”, analisou o presidente da Comissão Nacional de Hortaliças e Flores da CNA, Manoel Oliveira.

A pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Margarete Boteon, destacou que abril e maio foram os meses mais críticos da pandemia para o setor de hortaliças, principalmente para as folhosas. “A produção de alface foi muito afetada em termos de investimentos. Esperamos que a área perdida e não investida em 2020 se recupere em 2021”.

Grãos

 Os especialistas fizeram um panorama sobre os custos de produção na safra 2019/2020 e discutiram qual o reflexo financeiro disso para as culturas da soja, milho, trigo e arroz na próxima safra.

O pesquisador Mauro Osaki, do Cepea, apresentou os resultados dos custos de produção de soja, milho (primeira e segunda safras) e feijão levantados em 30 regiões do País. O especialista dividiu as culturas em três grupos, sendo baixo, médio e alto desempenho, levando em consideração os fatores climáticos que levaram à quebra da safra, além dos fertilizantes, defensivos e sementes, insumos que segundo ele, contribuíram para o aumento do custo de produção dessas culturas.

“Na soja, o custo da terra, que é variável, é muito importante porque tem aumentado bastante o arrendamento e isso eleva o custo de oportunidade do produtor, que precisa ser mais eficiente para continuar produzindo”.

Em relação aos mecanismos de venda, na safra 19/20, Osaki afirmou que 50% da produção foi vendida antecipadamente por barter (troca) ou venda antecipada. “Além disso, boa tarde dos produtores fez venda na colheita e poucas regiões conseguiram aproveitar bons preços”.

O pesquisador dividiu os dados da cultura do milho em verão e segunda safra. Em relação ao milho verão, ele destacou que a produção apresentou um padrão altíssimo, com regiões produzindo acima de 12 toneladas/ha. “Com a rentabilidade, de modo geral, todo mundo conseguiu pagar seu custo operacional efetivo. Tivemos bom preço e boa produtividade”.

O milho segunda safra também teve uma produtividade muito boa, com 50% da produção já comprometida por venda antecipada. “Esse é um milho importante principalmente para o segmento de carnes. Porém, esse milho não estará disponível no mercado interno. Isso é um sinal de que precisamos melhorar as ferramentas de proteção de preço para o setor de aves e suínos que são os principais demandantes.”

Segundo Mauro Osaki, o arroz irrigado, por sua vez, é um setor que vem apanhando nos últimos anos, com rentabilidade negativa. Ele argumentou que o setor sofre mais que o da soja, porque trabalha com mercado doméstico.

“O preço se forma em dólar, mas vende para o mercado doméstico em reais. Fora os custos de produção com fertilizantes, defensivos e energia elétrica (aumenta o custo da irrigação). Apesar disso a safra 2019/2020 foi positiva, com a produção de 173 sacas de 50 kg e a receita bruta pagou todos os custos”.

Trigo

Sobre o trigo, a produtividade média foi de 50 sacas por hectare nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O principal problema da cultura é a falta ou excesso de chuvas, afirmou. Exceto a região de Castro (PR), que ultrapassou as 50 sacas/ha, os demais tiveram prejuízo e não conseguiram pagar seus custos totais. “Dificilmente os produtores permanecem na atividade. Podem permanecer para fazer rotação de defensivos, por exemplo, mas não para ganhar dinheiro”, disse.

Fábio Meneghin, da Agroconsult, apresentou uma análise dos custos e margens para soja e milho. Segundo ele, o principal vilão dos custos de produção foram os defensivos devido à taxa de câmbio. A rentabilidade da soja esperada na safra 2020/2021 é um aumento de 1,5 milhão de hectares com potencial de 134 milhões de toneladas, uma média de 58 sacas/ha. “Há uma demanda de 15 milhões de toneladas puxada principalmente pela recuperação do setor de suínos na China”.

Em relação ao milho, Meneghin ressaltou que o de segunda safra, com margem de aproximadamente R$ 2 mil por hectare é muito bom para o produtor. “Estimula a busca por tecnologia e mais produtividade.”

A estimativa de produção para o ano que vem é de quase 111 milhões de toneladas e uma demanda também de quase 111 milhões de toneladas, que surge da nova indústria de etanol de milho, além da indústria de proteína animal e para exportação.

Pecuária de corte

O setor vive um momento positivo, mas a boa gestão da atividade garante melhores índices de produção e uma proteína de qualidade. “Precisamos trazer a tecnologia de precisão para a nossa pecuária e tratar nossas pastagens e genética de maneira diferente. O pasto é a lavoura que alimenta o gado brasileiro de alta genética”, afirmou o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte da CNA, Antônio Pitangui de Salvo.

O dirigente disse que o cenário para a carne bovina brasileira é favorável em longo prazo e que o Brasil continuará sendo o principal player no mercado. “No próximo ano devemos observar uma grande mudança nos hábitos de compra e consumo de proteína animal. Para o produtor, o maior desafio é a gestão, pois pode haver redução das margens”.